Search

Xines, o 'operário excomungado' do Punk Rock


O ano de 2019 trouxe mais uma perda! Marcolândio Gurgel Prachedes (conhecido como Bispo Xines) da banda punk Excomungados faleceu no último sábado dia 09 de fevereiro devido problemas de saúde. Ele foi um dos personagens mais importante da cena punk rock paulistana (dono da loja Garimpo Cultural, na Galeria Nova Barão, e do selo Corsário Discos), seja lançando coletâneas, produzindo shows e eventos, enfim, uma pessoa que fez de tudo para que a chama do punk nunca se apagasse. O Punk Rock Não Morreu, apenas foi pogar em outro plano. Êra Punk... Êra Prachedes...

Segue abaixo alguns depoimentos de pessoas que conviveram com o Xines:

Breve epitáfio para um bispo punk - por Marcos Rossini (Excomungados)

Foi uma verdadeira honra para mim quando o Gabriel Sossai, esse ícone do punk sp atual e camarada de todo mundo, me pediu para escrever algo sobre o início dos Excomungados e o Chinês Praxedes. Eu escutei as várias versões sobre a morte do Chinês (Xinez) no domingo; uma falava que ele tinha caído depois uma sua heróica resistência à polícia, outra contava sobre uma covarde execução depois de um surto, mais tarde se soube que ele tinha partido por problemas de saúde. Eu fiquei arrasado quando eu soube do falecimento do garimpeiro cultural que escavava sempre na tristeza para achar um brilhante sorriso para a gente. Ele nunca deixou de lutar, foi resiliente e poliédrico, um pouco como todo paulistano: mercenário, bispo, revolucionário, professor, corsário, pai-de-família entre outras coisas. Criatividade nunca faltou naquele guitarrista que nunca aprendeu a tocar guitarra. Apesar de viver ao lado do instrumento por 30 anos, ele afirmava que aprender a tocar guitarra de modo tradicional acabaria com a cara punk que ele queria imprimir à música dele. Era a famosa guitarra paleolítica dos Excomungados. O paleo-punk da pior banda do planeta como ele costumava a chamar aquele bando de moleques que se tinham conhecido depois da invasão do conjunto residencial da USP, evento no qual ele tinha sido uma das lideranças. O Falcão me levou pela primeira vez até ele, me dizendo: “Eu conheço um cara que mora no CRUSP”. Fiquei curioso.

Nos anos 70 a escola pública não era ruim como hoje em dia, o processo de privatização do ensino organizado pela ditadura militar tinha começado fazia pouco tempo, e portanto um filho de zelador como eu, um filho de jardineiro do Jaçanã como o Falcão, e um filho de um místico nordestino que tinha fundado a sua própria religião, como o Chinês, ainda podiam passar o vestibular da USP graças à base educacional que tínhamos tido no passado. Estudávamos história com nobres princípios; para nós era fundamental entender pelo que estávamos passando, a origem de tudo aquilo, e ter a possibilidade de alertar e educar as próximas gerações. Tínhamos saído do ninho fazia pouco tempo e nenhum de nós esperava que sobreviver sozinho seria tão difícil, a desilusão foi gradualmente crescendo, e tomar cacetada da polícia nas manifestações era só uma pequena parte daquilo. Nós estávamos com o saco-cheio de tudo, desde a música que tocava no rádio até os cabelos longos dos pós-hippies nacional-populares, de como o movimento estudantil era controlado pelas correntes até a violência dos militares...um pouco como o que estamos vivendo hoje. Um dia, em qualquer ponto de busão das nossas vidas, eu e o Falcão decidimos que era hora de romper com tudo. Em 1976, eu ouvi pela primeira vez o Sex Pistols na casa do Maurício Garrote, e não acreditei...fiz eu mesmo uma camiseta punk e saía pelas ruas com ela, mas na época eu encontrava punks só em gigs de banda de rock pesado; eram poucos, e ficávamos do lado das caixas de som com aquelas caras pálidas e apocalípticas. Nos anos seguintes enquanto eu me preocupava em trabalhar, militar no sindicato e estudar, o movimento punk crescia e aquele sentimento de revolta finalmente se popularizou com o festival “O começo do fim do mundo” no SESC em 1982. Aquilo contribuiu para incentivar a decisão que tínhamos já tomado. De um dia para o outro parecia que uma página da história tinha sido virada, não éramos mais os mesmos, estávamos em um processo de reelaboração (reset) de uma série de conceitos e concepções para conseguir exprimir o que a gente sentia de maneira coerente e forte. O Chinês tinha feito um trambique qualquer (como sempre) e tinha conseguido uma guitarra, eu tocava com um tarol Gope (comprado no Mappin) como caixa de bateria e com uns almofadões de couro como tambores, o Falcão gritava sem microfone e o Poeta tinha arrumado um daqueles guitarrões velhos dos anos 50 de cor vermelha. Só uns meses depois que o Mineiro iria conseguir arrumar um baixo para compor o núcleo inicial do que seria batizado por mim de Excomungados. O nosso círculo de amigos aumentava e quando o Poeta (autor de “Com o saco-cheio de rock’n’roll”) partiu para Serra Pelada, o Marquinhos Lagonegro entrou na banda.

Cada um tinha uma característica, eu era o ideológo punk que fazia fanzine e material midiático, cuidava da parte organizativa e logística, o Falcão encarnava o punk na sua essência mais poética e expressiva a nível físico e comportamental. O Marquinhos era intelectual e sabia tocar música. O Mineiro era um criativo artista egocêntrico que só pensava em se divertir. Uma das principais características do Chinês era a sua sociabilidade, ele era uma espécie de relações públicas do grupo; ele sabia fazer com que as pessoas se sentissem bem perto dele, usando uma séria infinita de artimanhas e artefícios, discursivos e práticos. Das inúmeras pessoas que giravam em torno aos Excomungados, o Chinês descobriu vários artistas como o gaúcho Otacílio Camilo (https://lume.ufrgs.br/handle/10183/173607), o esteta rebelde segundo Izis Abreu, que passou a cuidar do nosso material de mídia. O Eliseu foi outra descoberta dele, era um artista de Resende-RJ, que chegou a morar no CRUSP até que alguém o fizesse desaparecer das nossas vidas. Sem falar de outras personalidades como o Parafuso e o Gilmar, além do Fábio e o Paulo das bandas filhotes dos Excomungados, a Uza-Autópsia e a F-64. Peço desculpas aqui para os muitos que não foram lembrados por mim, mas é que o Chinês tinha essa coisa, o movimento para ele era uma família, ele sentia a necessidade de se relacionar, e isso era parte de um processo interativo que o completava e que fazia com que ele pudesse passar toda a sua experiência para os mais jovens em meio à esse contexto tão medíocre, violento e nefasto como o da nossa amada cidade de São Paulo.

A partir da improvisão inicial e mais equipados, a férrea vontade de seguir em frente nos levou a fazer dezenas de gigs por todo o estado, em Santa Catarina e no Rio de Janeiro. Chegamos a se apresentar até na Bienal de SP - A Trama do Gosto de 1987, lá encontramos o poeta construtivista Augusto de Campos. Foi o Chinês que me levou um dia para Curitiba (deveria ser 1987) onde acabamos fazendo amizade com o poeta Paulo Leminsky e com ele, por duas noites, nos encharcamos nos botecos daquela fria cidade. O Leminsky queria entender o que era o punk, e ninguém melhor que o nosso bispo Chinês para explicar para ele.

Todo punk sabe que nossas vidas têm alto e baixos, e quando os momentos são baixos, são muito radicais mesmo, mais além que o fundo do poço, que nem prospecção de pré-sal. Uma das mais intensas experiências que eu vivi com o Chinês, além das brigas, batidas e fugas da polícia, do tiroteio em Santos no festival do Tropa Suicida, foi quando eu e ele acabamos por 3 dias no extinto DEIC numa cela com 15 fulanos. Tinha de tudo, ladrão de banco, de galinha, estelionatário, estuprador, etc. Durante a segunda noite puseram um fulano na cela que já tinha apanhado bastante da polícia, ele nos disse que precisava de alguém para quebrar o seu braço porque se ele não fosse para o hospital naquele momento, iriam colocá-lo no pau-de-arara na manhã seguinte e ele teria que caguetar o chefe dele. Caraia....isso eram 2 da noite! Imaginem! Daí um ciclano se levantou e disse: “Põe o braço aqui entre o pé da latrina e o chão que eu quebro com o pé”. Depois de várias tentativas o braço inchou, o cara já não aguentava de dor, logo o guardião foi chamado, e o levaram. Já nesse dia mesmo de manhã um investigador fdp me levou junto com o Chinês para a pré-sala do pau-de-arara, assim a gente podia ouvir os caras apanhando e gritando, ficava com medo e dizia às nossas famílias para pagar o que eles queriam para soltar a gente. Sabíamos que tudo aquilo era para fazer pressão pois não tínhamos feito nada de extraordinário. O interessante é que nessa pré-sala a gente encontrou dois caras. Um tal de Zoreia que era um alemãzinho feio, com sardas e orelhas de abano, e o seu comparsa que só abria a boca de vez em quando. Deviam ter no máximo 18 anos. Como ele mesmo relatou com orgulho, o negócio deles era assalto, e que se ele não gostava da cara da pessoa atirava no peito ou na boca. Disse que tinha 12 na conta, fora os que tinham “por vontade de deus” sobrevivido. Vinte minutos depois tiraram um cara que caminhava quase de gatinhos da sala do pau, e levaram o Zoreia e o comparsa para lá. Em seguida nos levaram de volta para a cela sem nos tocar. A polícia civil tinha achado bagulho no nosso bolso depois de uma manifestação para a volta da democracia, viu que a gente estudava na USP e pensou que nós tínhamos dinheiro. Um dos investigadores do DEIC armou tudo para que algum parente nosso pagasse uma grana para nos soltar, ele acusou a gente de ter roubado um rádio de um Opala. O policial nos livrou só quando as nossas famílias cumpriram o acordo. Meses depois, lendo a Folha, descobri que eu e o Chinês tínhamos estado na presença de uns dos maiores homicídas do estado, o Zoreia, que tinha sido morto pela polícia no dia anterior.

A idéia de fazer intervenções punks para perturbar os eventos dos políticos foi idéia dele também. O reitor Goldemberg perdeu os últimos cabelos brancos que tinha na cabeça graças à aqueles anarquistas malditos que tinham invadido o CRUSP, intervinham em todas as manifestações oficiais, apoiavam as greves dos funcionários, o chamavam de nazista, e ainda desenhavam um símbolo profano nos muros.

A primeira música dos Excomungados, que pegou mesmo, foi o Chinês que escreveu, se chamava “Porra” e dizia: “...Porra! Quem é que bate a essa hora da noite? Será a senhora morte?...”

Eram tempos onde as milícias do esquadrão da morte chegavam repentinamente de noite para acertar as contas, e logo na manhã seguinte podia ser que o Gil Gomes narrasse tudo como uma novela pelo rádio perguntando: “Quem é que bate a essa hora da noiteeee?”, ou se podia supor que aquilo fosse somente uma alucinação do Beethoven...tudo era como hoje em dia: alienação e violência, por isso que nunca perde o sentido ser punk.

Isso é só um pequeno resumo sobre o começo dos Excomungados, quem sabe um dia escreverei tudo com mais detalhes. Em 1989 eu deixei de acompanhar o Chinês porque resolvi seguir uma estrada diferente por via das minhas necessidades econômicas. Sempre quando eu voltava à SP, eu passava lá na loja, e como sempre ele estava rodeado de artistas talentosos como o Gabriel Sossai, o Fábio Rodarte e outros que toda vez me recebiam e recebem com muita gentileza, música e poesia punk.

Descanse em paz, Chinês! E obrigado por tudo que você fez pela gente!

Pekinez Garcia (vocalista da banda Igreja Punk e um dos integrantes da banda Excomungados)

Conheci o Xines pessoalmente em 2012 na loja dele, a Corsário Discos pois era fã do Excomungados e soube que ele era o proprietário da loja. Fui até lá com a intenção de mostrar uma música que tinha feito e no mesmo dia fomos para o estúdio e gravamos. Essa música deu origem ao disco Expulsos do Purgatório. Esse era o espírito do Xines, ele dava chance a novos talentos. No dia a dia com ele vi que ele dava chance a novas bandas, ele era um divulgador cultural, ele era o espírito punk do faça você mesmo. A banda Igreja Punk ao qual toco hoje foi uma idealização do Xines, que sugeriu que montassemos essa banda paralelamente ao Excomungados. A Igreja Punk é uma banda coletiva e rotativa, ou seja, sem membros fixos, exatamente para dar chances de outras pessoas de realizar o sonho de tocar, gravar e expor suas ideias, a Igreja Punk é uma banda feita para qualquer um se expressar. Essa inovação é uma ideia do Xines. Estamis em processo de gravação de um disco novo e não vamos parar, vamos realizar a vontade dele, aliás vamos dedicar esse disco a ele, com participações especiais, como ele gostava. O Xines deu chance para muitas bandas através das coletâneas lançadas pela corsário discos, um espaço raro. Ele divulgava e contava um pouco da história das bandas lançadas com muito carinho, ele era muito dedicado no que fazia. Ele fez a diferença no cenário punk e no rock nacional junto com o Excomungados, uso como por exemplo a música " vida de operário" regravada pelo Pato Fu e Patife Band. O Xines deixa saudades como se fosse um irmão mais velho que partiu, um irmão mais velho que cuidava do mais novo! Descanse em paz Xines!

Falcão (Excomungados)

A formação dos Excomungados foi o resultado do encontro de estudantes moradores do Crusp, que de certa forma se sentiam excluídos do mundo acadêmico burguês que predomina na USP. Encontramos no punk rock, a maneira mais crua de expressar nossa rebeldia contra a hipocrisia da sociedade dinheirista da época, que apoiada no autoritarismo militar sufocava os jovens de baixa renda. Ao contrário da maiorias das bandas de punk rock de São Paulo, nós não éramos mais teen-agers. Tínhamos todos mais de vinte anos mas ainda com a velha pegada adolescente, aliada a uma dose certa de esquerdismo anárquico. Em maio de 1982, durante a guerra das Malvinas e após seguidas reuniões ouvindo Sex Pistols, eu, o Marcos , o Xinez e o Mineiro resolvemos formar uma banda de rock. Acontece que não tinhamos instrumentos e nem sabíamos tocar. Neste ano aconteceu o festival ‘O começo do fim do mundo’, e a partir daí, a banda que ainda não tinha nome, passou a ser de punk rock. Emprestei uma guitarra velha, e um ampli 40 watts de meu irmão, o Xinez comprou uma guitar stratosonic, e o Marcos tocava bateria numas cadeiras de metal. Eu queria ser guitarrista, mas ninguém queria fazer vocal. Fizemos um sorteio e o microfone veio para mim. Na verdade não era microfone, e sim um vidro de maionese vazio. O nome Excomungados foi sugerido pelo Marcos. Depois de um ano ensaiando, apareceu o Poeta com um baixo de verdade, e a banda ficou completa para a primeira apresentação, que foi na festa de aniversário da Ana das Mercenárias, na sala 51 das Colméias do Crusp, com a presença de bandas como Ratos de Porão, Inocentes, TFP e Psicose. Nós abrimos, e pela primeira vez fiz vocal em um microfone de verdade. A apresentação foi muito boa, causamos impacto, e pena que tocamos só quatro músicas. Depois juntaram-se a banda o Marquinho, que já tinha formação musical, o Dimas e o Daguia, que eram punks funcionários do bandejão do Crusp, e também eram da banda Dotores do Subúrbio, de Carapicuiba.

No início agente tocava nas faculdades da Usp, onde o público de estudantes nos via com um misto de desdém e incredulidade, o público ficava chocado, tocávamos nas greves dos funcionários ou onde dava, onde hoje é o Cinusp, era uma sala abandonada ampla e toda pintada de negro, lá fundamos o Túmulo do Rock, local em que realizamos vários encontros sonoros com outras bandas de São Paulo. A partir daí começamos a receber convites para tocar nos bairros da periferia, zonas leste, oeste, norte e sul, centro e íamos em todos os lugares. Nos mantínhamos longe das tretas pois nossas posições anarquistas não concordavam com a desunião do movimento, apoiávamos vários movimentos sociais. Não recusávamos convites neste período, pelo contrário este foi o período que mais tocamos, o que ocorreu é que a partir de 85 os carecas partiram para atitudes extremadas, que só tumultuavam as gigs, por isso começamos a selecionar os locais onde prevalecia a anarquia.

Confira o vídeo de uma das apresentações do Excomungados no extinto programa da TV Cultura Boca Livre, comandado pelo Kid Vinil:

#Excomungados #Xines

SIGA A STAY ROCK BRAZIL:

  • White Facebook Icon
  • White Twitter Icon
  • White Instagram Icon
  • Branca ícone do YouTube
  • White Flickr Icon
  • White Google+ Icon

© Todos os direitos reservados a Rádio Web Stay Rock Brazil