Search

Análise: como os tiozões tornaram-se os "guardiões do Rock"





Antes de tudo, preciso avisar que minha opinião não representa, necessariamente, a opinião dos editores desse blog.


Após esse breve "disclaimer", seguem, abaixo, alguns fatos e opiniões sobre o que vem acontecendo com o Rock.

Música erudita e Rock


Várias fichas cairam enquanto eu lia o livro “The Purple Cow” do Seth Godin no qual ele exemplifica questões da indústria fonográfica ao citar o processo que aconteceu com a música clássica. Quando pensamos em música erudita, de cara, lembramos de Beethoven , Mozart e Bach. Já parou para pensar porque não pensamos em nomes de compositores atuais ?

O que não falta hoje é gente compondo para orquestras, só que os compositores não estão na boca do povo. Grande parte desses compositores escrevem música para trilha sonora de filmes, por exemplo.


Com o Rock está acontecendo algo parecido. Se perguntarmos a jovens atuais sobre os primeiros nomes de bandas de Rock que eles lembram, a grande maioria vai dizer : Guns and Roses, AC/DC e Queen. Entre as 3 bandas citadas, a mais “nova”, GNR, lançou seu primeiro álbum em 1987. Dificilmente, um jovem citará uma banda que lançou seu primeiro álbum em 2021. O motivo é fácil de entendender.


Vá em um Rock bar e veja as bandas que tocam lá . Sim, você sabe: bandas que tocam “ Classic Rock “ ou bandas tributo daquelas citadas acima. Toda banda de Classic Rock tem que tocar, obrigatoriamente, “Born to Be Wild”, Highway to Hell, Sweet Child o’ Mine e alguma do pessoal do Queen (pois nem todas as bandas possuem aparato para executar Bohemian Rapsody ao vivo).


Percebe? Não há novidade tocando nas casas de show . A esmagadora maioria das músicas que as bandas tocam foram lançadas há, pelo menos, 30 anos.


Reciclagem


Antes que enviem um Drone com metralhadora onde estou, aviso que curto as bandas antigas e que nada tenho contra bandas cover ou tributo. O que quero mostrar é que o público de Rock, sem perceber, tornou-se um público musicalmente conservador.


Certo dia, presenciei um papo numa rede social com pessoas discutindo sobre a banda Greta Van Fleet no qual um dos participantes disse :

“Prefiro uma banda atual que seja igual a uma banda antiga ( Led Zeppelin no caso ) do que uma banda nova que seja ruim. “

Isso me fez questionar :


Será que o Rock está fadado à eterna reciclagem ?


O público prefere escutar bandas da década de 70 e 80 e também suas cópias (ou bandas muito parecidas) mas não curte bandas novas que fogem da sonoridade “ clássica “ do Rock .

Se isso não for conservadorismo musical, me diga, então, o que é.




Fundamentalismo


Outra coisa que as pessoas reclamam muito é o fato dos fundamentalistas “guardiões” do Rock implicarem com aqueles que usam camisas dos Ramones (a mais comum) e outras bandas . A argumentação desses Talibãs do Rock é que para poder vestir uma camisa é essencial que a pessoa conheça, profundamente, o som da banda.


Realidade das bandas autorais


Trazendo para a realidade das bandas autorais brasileiras , a coisa é feia.

Em muitos lugares, banda autoral virou sinônimo de banda ruim , chata e sem graça, simplesmente porque as mesmas não tocam “Highway to Hell” ou algum hit da Legião Urbana em seus shows.


É um tremendo paradoxo o fato de roqueiros dizerem que são libertários, antissistema e não perceberem que eles não apoiam aqueles que tentam “ furar a bolha” fundamentalista do Rock.


Modus operandi do Sertanejo


Paralelo ao fato de o Rock estar longe do mainstream, temos os artistas sertanejos que tomaram todos os espaços no Brasil. Até na Bahia, onde há rádios que só tocam Axé Music, rendeu-se ao estilo.


Os roqueiros precisam observar e aprender muito com o modus operandi dos sertanejos: padrão de produção impecável e atenção a todos os detalhes. O modelo de negócio dos escritórios é superprofissional. Todos os artistas tomam um “banho de loja” e sobem no palco com figurino impecável . E os roqueiros ? Há excessões, mas a grande maioria sobe no palco com uma bermuda surrada e uma camisa cinza ( que originalmente era preta) com alguma estampa relativa ao Rock.


Além disso, os sertanejos não perdem tempo com purismos, incorporando outros estilos em suas músicas. Darwinismo musical: quem não se adapta, corre sério risco de extinção.


Funk brasileiro e RAP


A rebeldia que outrora pertenceu ao Rock , migrou para o Funk. As pautas politicamente corretas domesticaram o Rock , fazendo com que o estilo ficasse limprinho e cheiroso. A sujeira, palavrões e a putaria estão no Funk brasileiro, estilo no qual os maiores expoentes falam o que querem sem nenhum pudor.

Recentemente, Eric Clapton lançou uma música com temática “negacionista” e seus fãs reclamaram. Esse tipo de coisa não acontece no universo do Funk e do RAP.


Nichos


Hoje, com o advento da “ Cauda Longa”, tudo é nichado: muitas bandas ganhando muito pouco . Antes, tínhamos poucas bandas ganhando muito.


Isso é melhor ou pior ? Não sei , só sei que o modelo antigo de cultura de massa está desaparecendo e é importante que todos colaborem para a sobrevivência das bandas autorais e, consequentemente, do Rock.





Concluindo...


O fato de os tiozões encherem o saco das gerações mais novas faz com que muitos jovens adotem outros gêneros musicais como estilo de vida. Os roqueiros, por se adequarem a purismos e pautas politicamente corretas, estão ficando para trás, pois ninguém quer escutar música de gente mimizenta.


Os funkeiros, rappers e sertanejos (que hoje estão cada vez mais próximos do Pop) não se incomodam ao incorporar elementos de outros estilos e cantar letras safadas e divertidas sobre, por exemplo, beber até cair.


Se o Rock não se renovar, vai passar pelo mesmo processo da música clássica. Portanto, é hora de dar espaço a bandas autorais e deixar de ser um purista que paga 25 reais para beber cerveja artesanal mas não compra o ingresso de 20 para ver a banda do amigo tocar porque não tem "Smoke on the Water" no repertório.


Texto escrito por Oswaldo Marques

Instagram: @oswaldoguitar

https://www.instagram.com/oswaldoguitar/